quinta-feira, 21 de fevereiro de 2008

Em busca das visões vegetais

Corpo de batráquio

Os poemas de Fiama não podem apenas ser vistos como um espaço no qual é possível reconstruir mecanismos da experiência que se plasmam em universos metafóricos e imagéticos pessoais, sem mais consequências. Os modos próprios dessa experiência pessoal vão-se acastelando em verso para configurar o tormento, obrigando a poetisa a ser tão lúcida que o compusesse. Assim, o poema é o suplício que a desperta do estado de felicidade para o estado da razão. O adjectivo feliz acusa a sua durabilidade, enquanto o seu corpo se prolonga até à forma de batráquio, podendo permanecer de ventre colado à grande mancha , onde emite sons para fugir à consciência da Poesia. Quando assim não acontece, a poetisa perde o paraíso. No entanto, não existe um esforço hercúleo em não abandonar os jardins onde a baba dos sapos segue um labirinto quando aceita que a Poesia lhe debique nas pálpebras. Contudo, verificamos que ao escrever o poema ficamo-nos sempre pelas palavras, ou melhor, por esta terrível impotência.[1] O poema escrito acaba por ser sempre um suplício, por isso, essa indizível, e sempre dita, tristeza que vigia a criação do poema é a única tristeza do seu mundo vegetal.
Fiama escreve estes versos, como todos os outros que constituem a Área Branca, emocionada, cheia de espanto, de intuições e de perplexidade: percebemos logo que as condições que geram estas modulações de tons que sobem são únicas e irrepetíveis, ainda que a circunstância seja um poema. As vivências de Fiama são como reflexos que enchem todo o seu espaço, um espaço inacessível como o das imagens do outro lado do espelho. Ao olharmos os versos, reparamos que, ao contrário do que acontece com outros poetas contemporâneos, não se despojou das metafísicas, como se tivesse entrado numa zona comercial, disfarçando-se e deleitando-se em artifícios e jogos, desdobrando-se em metalinguagens e intertextualidades. Pelo contrário, este poema segue uma despossessão de artifícios ao nível da linguagem altamente pertinente e parecem correr em verso com uma naturalidade invejável.
Quanto à estrutura física do poema, constatámos algumas incoerências em relação ao conteúdo. Neste sentido, adivinhar-se-iam versos fragmentários desprovidos de qualquer cuidado formal, tendo em conta o sentimento da poetisa ao ter que concretizar no poema as suas vivências. De facto, a sua criação não se processa desta forma. Podemos ver que as cinco estrofes que compõem o poema são densas e aglomeram-se, tornando-se extremamente longas, onde quase não existe espaço para que possamos respirar. O poema, desta maneira elaborado, personifica o tormento da lucidez e a racionalização da escrita que a obrigam a ser lúcida. É deste estado doloroso de razão que são construídos os versos longos, interrompidos por três curtos – Mas eu era feliz/ Onde eu tinha/ Rouca – quando a poetisa evoca a memória do tempo em que tinha olhos redondos extraídos do interior da terra. A memória desse tempo, pertencente ao momento originário, condiciona o pretérito imperfeito e mais-que-perfeito. Estes tempos verbais quando interrompidos pelo pretérito perfeito geram como que faíscas no consciente, consumando o verso: O poema atormentou-me. Assim, o pretérito perfeito é a ponte entre o estado inconsciente e a razão.


[1] Frase extraída de uma carta do poeta Trakl a um seu amigo Erhard Buschbeck.

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